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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Goiânia, a cidade cinza

Para quem não conferiu a manchete do Diário da Manhã de hoje, recomendo:

Welliton Carlos
da editoria de cidades

A Goiânia de 2010 ainda apresenta áreas rurais, principalmente na região norte da cidade. Mas é bom a população começar a se despedir deste último traço de vida interiorana. As previsões para o futuro não são animadoras. O histórico de expansão urbana ocorrido desde sua fundação, em 1937, demonstra que o crescimento vertiginoso vai emendar Goiânia com os municípios metropolitanos. A partir de fotografias aéreas e imagens de satélite, é possível verificar como a zona urbana invade bairros e áreas consideradas de interesse ambiental no passado.

Quem circula pelo Jardim Nova Esperança, por exemplo, custa imaginar que aquele espaço foi uma fazenda. Hoje, com vida própria, urbanizado e superlotado, o bairro mostra o que pode acontecer com as demais regiões verdes e ainda desocupadas de Goiânia. Sobram problemas: faltam ônibus, saneamento básico escasso e a distância dos principais órgãos públicos e privados que definem as políticas e serviços de interesse coletivo dificultam o exercício da cidadania. Enfim, não se descreve aqui nenhum paraíso.

O gestor ambiental Cleomar Rosário, especialista no estudo da relação entre meio ambiente e desenvolvimento das cidades, afirma que o desrespeito às normas municipais é um dos fatores que mais aceleram esta ocupação muitas vezes irregular e danosa. “Esta situação vai atrapalhar tudo. Uma cidade em expansão descontrolada tende a evidenciar os problemas sociais. Não é à toa que Goiânia foi considerada a Capital mais desigual do Brasil”, diz .

Ele relaciona a questão da expansão urbana ao transporte: “O Eixo Anhanguera não comporta mais ônibus. Ele polui, é desconfortável e afeta a qualidade de vida. Acontece que para ligar bairros tão distantes adotamos este sistema, enquanto nas outras metrópoles utiliza-se o metrô. Nos próximos anos temos duas alternativas. Uma ruim e outra péssima. A ruim é que precisamos ligar a cidade completamente por meio de metrôs – o que custa muito, mas muito caro. A péssima é que não podemos encher a cidade de eixos anhangueras”, fala Cleomar.

Ele tem em mente uma data para o fim das áreas rurais de Goiânia: duas décadas. O urbanista e arquiteto John Mivaldo, presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), departamento de Goiás, alerta para as perdas da qualidade de vida com esta expansão. “Antes, 40% de tudo era área rural. Hoje, um quarto da área urbana é destinado à especulação imobiliária”, resigna-se.

O urbanista refere-se aos estudos realizados no período em que as bases da Agenda 21, hoje parcialmente esquecidas, estiveram no debate público. “Chegamos à conclusão de que não precisávamos de loteamentos, pois o espaço residencial de Goiânia já é três vezes maior que o de uma cidade como Barcelona. Essa situação tende a gerar ônus para todos, pois a prefeitura gasta mais com uma cidade esparramada.”

Mais gastos
As entrelinhas da opinião de Mivaldo alertam para uma obrigação: o poder público municipal terá que gastar mais com pavimentação, escolas e transporte público. Como os lotes vazios na região central não são usados para ocupar quem, de fato, precisa de residência, eles se prestam à especulação. Por sua vez, sem espaço para estabelecer pessoas que necessitam de moradia, o poder público aloja o cidadão em áreas distantes.

Esta realidade põe por terra as pretensões de Goiânia como modelo de cidade-jardim, um sonho formulado na década de 1940. O conceito de Ebenezer Howard, elogiado por Atílio Correa Lima e aplicado por Armando de Godoi, indica que as desigualdades provocadas pela urbanização seriam resolvidas com a estratégia adotada pelas cidades-jardins, que combinavam o meio rural e urbano. Mesmo sem querer, mudamos a orientação do município.
A utópica cidade-jardim perde a cada dia as áreas rurais restantes para o parcelamento do solo – muitas vezes conquistados por meio da força e do poder econômico. Sílvio Costa Mattos, coordenador do Plano Diretor de Goiânia e pesquisador da questão urbana, diz que o problema não ocorre apenas na Capital goiana, mas em todas as metrópoles brasileiras.

Ele realiza estudo que começou na década de 1930 e segue até a atual década, em que demonstra os fatores econômicos que levaram Goiânia a expandir seus limites. Sílvio não acredita que a legislação municipal seja suficiente para conter o avanço nas regiões rurais de Goiânia. Sozinha, ela pode pouco. “Sempre temos um evento, um fato exterior que se sobrepõe à nossa realidade”, diz. É uma visão realista frente ao histórico da Capital de Goiás. Ele cita a marcha para o oeste e a construção de Brasília como fatores que atrairiam moradores para a cidade, forçando sua expansão. Nas décadas de 30 a 60, evidentemente, ainda existia espaço para a ocorrência da expansão da mancha urbana. Ocorre que ela se agravou nas duas décadas posteriores, 1970 e 1980. Sílvio faz um interessante paralelo entre o golpe militar de 1964 e a aceleração da urbanização na Capital. “Com a ditadura, as relações no campo tornaram-se mais difíceis para a população interiorana”, analisa.

O especialista explica que o setor agropecuário foi privilegiado com financiamentos e relações de trabalho mais rígidas no interior. Desta forma, parece óbvio que parcela da população fugiu do sistema opressor e se dirigiu para as cidades. A mecanização da agroindústria, a falta de reforma agrária e a ausência de relações trabalhistas justas impulsionaram a urbanização. E Goiânia viveu esta realidade de forma intensa. “O resultado é que a urbanização brasileira desenhou um quadro no País que se expressa hoje por uma gigantesca concentração de miséria e comprometimento socioambiental, principalmente na periferia das grandes cidades brasileiras”, diz Sílvio em seu artigo.

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