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quinta-feira, 25 de março de 2010

Campanha acende sinal de alerta para falta d’água

No sertão central do Pernambuco, as mulheres caminham de 3 a 8 quilômetros todos os dias. Carregam na cabeça uma lata de 20 litros para encher na escassa cacimba e abastecer a família e os animais. Depois de horas à espera, retornam com a água barrenta e pesada, que vai servir para matar a sede, cozinhar e para a higiene pessoal. O cotidiano de luta e sofrimento por um pouco de água suja - descrito por uma de suas protagonistas, a pernambucana Vanete Almeida - parece distante para quem lava calçadas e carros com tanta frequência e vive em aparente abundância na Região Centro-Oeste do País. Mas pode estar batendo à nossa porta.

Cientistas ligados a universidades e organizações não-governamentais do Brasil e dos Estados Unidos, além de representantes da sociedade civil - como dona Vanete - reforçaram em São Paulo, na noite de segunda-feira, durante o lançamento do Movimento Cyan (leia reportagem nesta página), o alerta sobre uma tragédia iminente em função da escassez de água. Seu consumo cresce duas vezes mais que a população em todo o mundo e a previsão é de que já em 2025 dois terços do planeta tenham problemas graves. O cenário, previsto para dentro de 15 anos pelo jornalista norte-americano Steven Solomon - autor de livros como Água: A Luta Épica para a Riqueza, Poder e Civilização - é desolador: refugiados ambientais vagando por terras, expulsos por secas e inundações.

Mas também houve espaço para boas notícias. Pesquisa realizada pela World Wildlife Fund (WWF) revela que 61% da população brasileira está disposta a mudar hábitos e atitudes com relação à água. “Nossos filhos são mesmo diferentes”, conclui Denise Hamú, diretora da WWF-Brasil. No entanto, é preciso ter pressa para concorrer com a velocidade da destruição. A ambientalista Marcia Brewster, que já atuou na Organização das Nações Unidas (ONU) e trabalha para revitalização de frentes marítimas urbanas, revela que mais de 2 milhões de litros de esgoto são despejados por dia nas bacias hidrográficas.

É o que o professor Ladislau Dowbor, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, definiu como “uma conta que não fecha”. Ele considera que os números do PIB são errados, porque não consideram o custo ambiental da produção. Dowbor apresenta cálculos curiosos sobre equívocos do mercado, como a generalização do consumo da água mineral em garrafa, cujo custo chega a alcançar a proporção de um para mil em relação à água de torneira. “É preciso lembrar toda a cadeia que existe para essa produção, do engarrafamento até o gasto de combustível para comprar o produto no supermercado”.

O índio Daniel Mundukuru, que abriu as palestras do Movimento Cyan, resumiu tudo com propriedade ao contar a relação de seu povo com a natureza. “Para nós a terra é chamada de mãe e o rio de avô. Nossa relação com eles é de parentesco, de pertencimento, não de superioridade. Ninguém destrói um parente. Pelo contrário, a gente cuida, ouve conselhos e tem uma relação de amor”, disse Daniel. A pernambucana Vanete Almeida, que coordena o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais no Sertão Central de Pernambuco, também não tem dúvidas do valor da água. “Quando chove a gente corre para colocar panela, balde e pote fora de casa. É muito triste ver a água ir embora e não aproveitar”, contou.

Fonte: O Popular / Reportagem: Silvana Bittencourt

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